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Criolo

O rapper fala sobre as dificuldades na infância, conta como trabalha sua espiritualidade, revela que não ia gravar o aclamado álbum Convoque seu Buda e diz como se sentiu ao ver que sua declaração "Alguém nos ajude, Lázaro tinha viralizado

por_ Fel Mendes e Juliano Coelho / fotos_ Alexandre Gennari


Criolo

Seus pais nunca pegaram mal com o fato de você querer cantar rap?
Meus pais sempre tiveram muito medo de uma coisa que aconteceu na vida deles, e um pouco na nossa, que é passar fome. E eu tô falando passar fome de verdade, não é devaneio. Não é metáfora. Então a gente tem que aprender a se virar, tentar entender como é que está tudo isso ao seu redor e sobreviver. Sempre houve essa tensão, essa preocupação. Pelo amor de Deus, né? Vamo lá, vamo tentar se virar, meu filho! E eu nunca consegui me adequar a um trabalho tradicional e não por falta de esforço, mas realmente por falta de competência.

E você tem vontade de formar sua família, ser pai? Você sente esse chamado?
Acho que as pessoas que estão ao seu redor e as pessoas que você ama já é algo forte. Se não você nunca vai adotar uma criança, né? O chamado pode vir de muitas formas. Eu acredito que ainda existe um pensamento muito tradicional em alguns lugares do nosso país sobre relação de família e o que é uma pessoa? Não se fala em uma pessoa feliz, né? A gente fala em uma pessoa bem-sucedida. Isso já vem carregado de muitas outras coisas que talvez não estejam ligadas no seu bem-estar emocional, espiritual, físico... Mas o que é ser bem-sucedido pelas nossas bandas aqui? Ainda existe um pensamento muito tradicional e vai demorar muito ainda pra ele se diluir. Mas existe ummovimento, as coisas tradicionais que bancavam esse movimento estão caindo por terra. Se a gente teve a revolução industrial, que foi uma coisa maluca, que mexeu com todas as famílias...As famílias foram amassadas, massacradas, né? E é tão maluco isso que a ideia de ter escola pública só começou a ser interessante por causa da revolução industrial. Não porque se pensou que é importante você pensar em uma nação soberana que vai se embebedar de cultura e educação, mas porque os filhos dos outros precisam apertar os botões das nossas fábricas.

Sim...
Só que essas fábricas já não existem e agora tem outra revolução, uma revolução tecnológica! Aí o jovem sofre um outro tipo de pressão. E o jovem sempre vai sofrer pressão porque tem que lidar com ele, o ser em formação, e querer descobrir o mundo... E a frustração do adulto, né?

Que está sempre...
A frustração do adulto! Se na família ele tem um ambiente sadio, de repente no trabalho tem um cara com frustração enchendo o saco. E às vezes a gente nem percebe. Porque, se você cuidar do espírito e das questões psicológicas que todo ser humano tem, já vão utilizar de uma outra questão machista ou já vem carregado de uma série de preconceitos que diz que a parte feminina desse cara está aflorada. Como se o feminino fosse algo também menor. E você vê que interessante, né? Em alguns segundos a gente já consegue fazer uma relação de tantas coisas que destroem o que poderia ser um pensar sadio. Seja homem, seja mulher, você é um ser vivo. Mas a questão de gênero é extremamente pesada, né?

Essa questão está mais evidente, né?
Desde que a gente se entende por gente sempre tem uma piada, né? Se tem uma mulher firme já vão falar que ela não gosta de homem. Se tem um cara que é extremamente preocupado com questões humanas, um cara que trata bem o filho dos outros, ou ele é um ótimo professor, sensível... já vão falar que ele não gosta de mulher. O cara acha que está atuando em uma questão de sexualidade, mas está mexendo com mecanismos de poder e nem ele sabe lidar com isso! É um caminho curto e que se perpetua.

Você tem um jeito doce de falar e você cresceu no mundo do rap, que é um mundo mais duro. Houve preconceito?
É natural que a expressão de arte vinda de um ambiente extremamente áspero demonstre aspereza.

E como você lida com esse seu dulçor e a aspereza do mundo do rap?
É que não é aspereza no mundo do rap, mas sim no cotidiano das pessoas. A expressão artística é um reflexo de tudo o que o artista sente. Mas existe doçura. Mesmo num ambiente extremamente áspero um cara escreve uma poesia. E, por mais que aquele beat o remeta a uma pancada, ele está tentando exorcizar as pancadas que o mundo lhe deu. Quando você fala das suas questões, está querendo também de uma certa forma demonstrar que não virou as costas pra isso, e isso já é o melhor passo de todos para uma melhoria. O rap é um livramento, é uma sublimação, é um espaço muito democrático onde você pode se expressar sem precisar de nota de rodapé.


"Nas quebrada tem Lan House, pai! Os moleque tão tudo com o celularzinho! A revolução da informação não tá na mão de ninguém!"


Como você expressa a espiritualidade?
Eu tenho uma mãe que é uma mulher de muita fé. Ela me ensinou que todas as pessoas têm uma boa energia, que todas as pessoas têm um campo energético que invade o campo energético da outra pessoa. E nisso você tem as pessoas com quem tem afinidade. Acredito que todas as pessoas têm a capacidade de fazer o bem e me ensinar algo. E assim eu levo a vida. Minha mãe foi benzedeira e é. Por muitos anos, muitos anos? E eu pude presenciar a fé dela. E não quero falar de religião, porque religião é algo maravilhoso, mas é um dos caminhos. Agora tem uma coisa que é brutal, que é a fé. A fé é essa energia máxima que a tua atitude diária constrói de um tanto que você consegue dividir com outra pessoa.

É difícil manter o otimismo às vezes, né?
É lógico porque o que está posto pra você é justamente o contrário! É uma competição! É justamente quando você pergunta pra uma criança o que ela vai ser quando crescer. Você acabou de falar pra ela que ela não é nada!

(Risos) O que você vai ser, né?
E se você crescer! Aí, nem por maldade, você acha que está incentivando um jovem a ir atrás de alguma coisa, e o tiro pode sair pela culatra. Se eu não sou nada, não espere nada de mim! Porque, se você pega uma criança que todo mundo aponta e fala que ela é o problema, sabe? E ela não vai te decepcionar sendo uma boa pessoa. Se você passa a vida inteira falando pra uma criança que ela é um problema, ela vai ter muita dificuldade. Ela pode falar: "Se eu deixar de dar problema eu não vou existir nessa sociedade. Porque tem o certo e tem o errado. E eu não sou aceito no grupo dos certos". São detalhes. E isso se cristaliza de um jeito e depois só sobra pra sociedade apontar que ele está errado e exterminar ele. Aí você entra numa questão de uma violência... A violência urbana tem essas nuances. Tem essa escancarada, das chacinas, que desde que eu me entendo por gente, que eu sou moleque de favela, sempre aconteceu. Só que não era interessante divulgar? E não tinha internet, né? Agora nas quebrada tem lan house, pai! Os moleque tão tudo com o celularzinho! E o baguio é louco. A revolução da informação não tá na mão de ninguém!

E se multiplica.
Isso se multiplica! É uma questão de gesto. E o gesto é uma coisa inicial do que você quer de construção pra uma nação. E você está falando de uma soberania que não tá no PIB. Quanto vale uma vida humana? E se a gente for falar da fauna e da flora... Aí vai ficar mais louco.

Aí vai longe...
Aí vai longe! Porque a patente da maioria das nossas ervas não é nossa! Porque, se você for falar que determinado minério é utilizado na construção de determinado material bélico que já foi patenteado, não é Brasil... Aí você vai mexer com todos os poderes. E isso é diretamente ligado a dinheiro. Porque dinheiro é código binário, não dá pra sacar. Quanto você tem na conta? Três trilhões. Saca agora! Não tem, tem que mandar fazer. Mas eu vou gastar 700 milhões só pra mandar fazer!

É um número, não existe de verdade...
Não existe e existe! Nós temos esse reflexo pulsante no planeta. Fizemos cinco tours na Europa e em nenhum outro país eu não vi gente pegando comida do lixo!

Mesmo nos países mais ricos?
Mas tem a fome da alma também. E existem outros lugares que as questões ligadas aos bens materiais já foram sanadas, mas existem as questões da alma. Aí você tem essa coisa de: "Mas ele tem tudo, porque ele se matou?. O que é tudo, né? É óbvio que cada caso é um caso, mas nós não somos vistos como unidade. Por exemplo, de dois em dois anos talvez você sirva como unidade, porque vai pra urna.

Pode crer.
É extremamente importante você dominar coisas que você quer falar. Estudar. Mas tem outras coisas que estão tão na cara que eu não preciso ser um expert pra falar. Eu sou morador do Grajaú há 38 anos. E ele já mudou tanto que já não é mais o Graja da minha infância. Mas eu tenho uma noção do que é a minha relação com a minha quebrada. Eu nem posso falar tanto no meu nome, porque eu falar de mim já é estranho. Também não posso falar em nome da quebrada. Posso falar do que vivi e o que isso trouxe de ensinamento. Falo da minha quebrada porque é minha história. Sua quebrada é o seu lugar, ok? Não é que é um lugar quebrado. E não é também porque a sociedade nos esmaga. Mas enquanto construção do pensar a gente anda quebrando alguma coisa na cabeça das pessoas. Não um quebrar de mostrar ser melhor, mas um quebrar de vamos descontruir isso e tentar construir algo juntos. Voltando ao lance, tem coisas que estão tão na cara...

Mesmo assim precisa ser falado, né?
Tem que falar! Mas parece que, se o menino da quebrada falar de um assunto, ninguém vai dar ouvido porque ele não tem o diploma tal! Só que ele sabe o baguio!

O menino Kleber (o nome de Criolo é Kleber Gomes) recebeu rótulos?
Quando você vive numa sociedade hipócrita, não importa se você nasceu num berço de ouro ou numa manjedoura de feno você sempre vai ser rotulado, porque sempre tem zé povinho. Agora, você ser rotulado porque você só fala três línguas e o outro menino fala cinco, é um baguio. Você ser rotulado porque você tá indo procurar emprego, sem ter o que comer, tá com o rosto de fome e o cara falar que você vai roubar se for contratado... Aí é diferente! Além de atuar no seu psicológico, tá atuando em outros bagulho também. Não dá pra colocar em pé de igualdade.

Criolo

E você sofreu com isso?
Ah, lógico! Eu sofri, sim: "Aí, fio de preto!", "Fedido!", "E aí, trombadinha! Tomando geral direto. Isso destrói o psicológico, mano! Aí você acorda pra verdade. Que nós somos seres invisíveis. Essa que é a real, é importante frisar. Porque a gente serve pra servir os outros, pra dançar pros outros, pra cantar pros outros, pra fazer uma boa comida pra você, pra te contar histórias? Mas não queira entrar na minha família não, senão eu mando te matar. Tanto morte matada, quanto essa morte homeopática do... "Você não é nada, não vai, que não é pra você..." E aí, se você cresce nisso você tem que ter muita força espiritual pra falar que você existe e é isso aí, vocês vão ter que aceitar.

Falando dos seus discos, o Nó na Orelha parece que foi bem despretensioso...
Totalmente despretensioso.

E aí o disco seguinte era esperado pra cacete e demorou uns três anos. Por quê?
Nem ia ter outro disco! Essa que é a verdade. E o Nó na Orelha também não era pra ser um disco. Era um registro de canções que ia ficar pra minha família. O Convoque Seu Buda talvez nem fosse existir porque a gente não tem que provar nada pra ninguém. Esse é o grande lance! Chegar nesse estágio em alguma coisa de tudo o que você vive? É maravilhoso! Eu escrevo desde os 11 anos e canto desde os 13. Vou fazer 40. A arte é algo de libertação pra mim, não é o grilhão. Mas que passa a se transformar se você coloca em outra ótica. Então nem Convoque Seu Buda ia ter, mas houve uma sublimação de... cara a gente lutou tanto, né? Então é também uma forma de agradecer a todas as pessoas que me estenderam a mão.

Fale da sua relação com a melodia.
Acho que vem da minha mãe. Eu me recordo dela arrumando a casa, eu e meu irmão ajudando e ela cantando. Seresta, canção, muita música popular brasileira. A gente criancinha queria imitar a mãe. E as músicas eram todas cheias de desenhos melódicos. Então, por mais pobreza que a gente vivia, sempre tinha um arrozinho com feijão, um pouquinho de farinha e um gravadorzinho. A gente morava no Jardim das Embuias. Ficamos cinco anos e cinco meses no barraco... Quando a gente soube que ia morar no barraco a gente chorou de felicidade. Que até então a gente morava num porão no Jardim Reimberg e, quando meu pai falou: "Eu comprei um barraco na favela"... Cara, que autoestima, velho... Aquilo mexeu com a gente. "Eu não acredito que a gente vai morar num barraco, é verdade?". É verdade. Ele ficou cinco dias batendo o chão de barro, porque não tinha piso e se chove e o barro está amassado ele não dilui e as parede não cai. A gente morou num terreiro por quase seis anos. O que é um terreiro? Posso dizer que isso é um terreiro também! Aí vem toda a força da africanidade da ala do meu pai. Eu sou bisneto de escravo, neto de estivador do cais do porto de Fortaleza, filho de metalúrgico de São Paulo e eu MC. Uma dinastia! Isso também é uma música, que quando você escuta uma canção de lamento, não importa em que língua esteja, você chora junto, você lamenta também.

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No novo disco você colocou a frase "Alguém nos ajude, Lázaro", que viralizou na internet num tom de humor. Como você reagiu a isso na época?
Primeiro eu achei duas coisas. Depois achei outras. A primeira coisa que eu achei foi: "Pô, eu existo". Nem que seja pra tirarem sarro de mim. Mas como isso já acontece com o povo brasileiro todos os dias desde quando as caravelas aqui chegaram, então já não é novidade. Como a gente não se reinventa até nesse processo! A segunda coisa: a pessoa que fez aquela montagem é muito inteligente. Ali tem um talento! Que não pode ser desperdiçado. Isso mostra como tem jovens talentosos em diversas partes do mundo com suas ferramentas de trabalho e a ferramenta maior que é a internet, jogando suas ideias. Sem pudor! Naquela entrevista eu esqueci completamente que estava dentro de um dos braços dessa máquina de comunicação e eu só me liguei que estava com uma pessoa querida, o Lázaro, um bom amigo.

As grandes entrevistas rolam quando o entrevistado esquece que é uma entrevista e entrega algo mais sincero, né?
É, e eu posso estar errado. Que bom poder estar errado, porque faz parte do processo de acertar! E quem disse que a gente só quer ficar acertando toda hora, a gente só quer viver também.

Você fala de drogas nas suas letras de uma forma não clara, por meio de gíria. Como é isso? Qual veneno você prefere?
Quer veneno maior do que você se reduzido a um CPF? Sacou, leque? Agora gíria, gíria todo lugar tem! E eu tenho 40 anos! Eu tô falando outras gírias, na minha quebrada os moleque já estão a milhão em outros bagulhos que eu fico quieto aprendendo. E também não é competição, né? Mas a gíria é mil grau, mil volts. E ajuda você a sintetizar muita coisa. A gíria é uma inteligência de construção de texto.

Mas é uma forma de falar só pra alguns?
Ou de mostrar pra todos, né? Que se eu for falar pra alguns eu vou segurar só pra mim, né? Não vou botar gíria numa letra se eu quero só pra mim. Eu não vou botar numa construção uma sacada linguística. Entendeu? É muito mais de: "Ó existe esse mundo também, de comunicação de expressão". E você ter orgulho disso.

O que acha da legalização da maconha?
Tem coisas emergenciais. Não diminuir as questões e aquilo que determinadas partes da sociedade enxergam como importante de ser dito. A gente tem que respeitar. Eu acho que a gente poderia falar da legalização da educação, da legalização do prato de comida. Um país que exporta tudo o que a gente exporta, não faz sentido um cidadão comer do lixo. Barro amassado com alguma coisa? Aí tem uma brisa aí também, hein? Dá um pã! Fome deixa você num outro estado.

A fama também trouxe outra coisa...
Mas de que fama vocês estão falando?

De você ser um cara reconhecido hoje.
Ah, tá, não é porque fama... A gente tem que entender o poder de cada palavra. Como é no imaginário de uma pessoa, a palavra fama. Talvez reconhecimento. Não que a palavra seja melhor, mas como cada lugar lida com essa palavra...

Mas você é um cara conhecido...
É uma honra, cara! Nós cantamos sábado passado na Acadêmicos da Rocinha. Foi uma emoção muito grande. E na primeira fila tinha uma senhora que estava com o filho ou o neto. E ela cantou todas as músicas. Isso pra mim é forte.

Mas eu ia chegar a uma pergunta que relaciona a fama com a indústria da fofoca, que te atingiu quando disseram que você estava namorando a Patricia Pilar.
Ah... Acho que as pessoas dão aquilo que elas tem, né? Resumindo é isso. Cada um dá o que tem. E eu vou respeitar essa pessoa no momento dela. O momento dela foi esse. Tudo bem, vou seguir minha vida. Vamos nessa. Agora a questão não é falar do casal que se formou. Isso é notícia de uma semana. Agora o que não é noticiado é quantos casais não se formaram, né?

Como assim?
Você tá aqui de boa. Você é apaixonado por aquela mina. Aí alguém diz pro mundo que você tá com outra mina. Não tô falando do meu com a mina que você tá pensando, mas tô falando... E lá? Isso aí não entra na conta! Mas cada um dá o que tem. Você tem que respeitar, as pessoas estão se comunicando e dando vazão às coisas que acham importantes. E existe uma série de pessoas que julgam isso importante para seu entretenimento. Se prezo por liberdade não vou podar.

Por que você não queria mais gravar música antes de fazer o Nó na Orelha?
Gravar disco é surreal, mano! Quem é que tem condição de gravar disco? Principalmente na nossa época. Fiz o Ainda é Tempo, em 2006, mas a construção dele começou em 2002. Aí lança em 2004 e pra pagar até 2006. Quem tem dinheiro, mano? Você é louco! Não existe.

E você ia fazer o quê?
Ué, continuar a fazer o que já fazia! Só não ia subir no palco. Subemprego, um corre aqui, outro ali, outro irmão participa de outro negócio, apresenta um evento, trabalha com não sei o que lá, entrega um currículo não sei onde...

Criolo





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