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Daniel Ganjaman

por_ Bianca Castanho / fotos_ Alexandre Gennari


Daniel Ganjaman

Você é o produtor do disco póstumo do Sabotage. Pouco se falou sobre isso, mas Vai sair?
Rolou um pacto de silêncio porque começou a ter muita especulação. Dizer que ninguém é baleado daquela forma hoje em dia é mentira, acabamos de ver o que aconteceu em Osasco. No caso dele foi por conta do envolvimento com o crime. Vai sair um disco inteiro, 12 músicas! E tem música que não saiu, que vai ficar guardada.

Quando sai?
É provável que saia ainda este ano. O que eu espero é ver muita gente chorando, porque está um disco emocionante. O Sabotage é impressionante. Pela primeira vez eu ouvi o disco de cabo a rabo, e é impressionante como é atual. É uma coisa datada, mas optamos por deixar assim, porque era como ele queria. Mas é louco como ele estava à frente do tempo. Eu vejo traços do que está acontecendo agora num disco feito há 10 anos! O Sabotage é o melhor MC que já gravei, sem sombra de dúvida.

Você vem sempre no bar do biu?
Sempre que posso. Sempre fui botequeiro, agora nem tanto... Há uns 20 anos, sim (risos). Hoje não dá tempo, é muito trabalho! Tanto meu quanto dos meus dois irmãos - todo mundo trabalha com música, no estúdio El Rocha, que é da família.Tudo isso por causa do meu pai, que foi músico há muito tempo. Quando a gente nasceu ele nem atuava mais profissionalmente. Mas a gente ouvia muita música brasileira, rock bom como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Pink Floyd. Eu, com 7 anos, já era meio metaleirinho. Quando estava com uns 16 anos, tocava em um monte de banda, mais num cenário de punk rock. Aí, numa época de Plano Collor, Brasil quebradaço, a empresa que meu pai trampava tinha falido, minha mãe professora e a grana estava escassa. Em 1997 falei com meu pai pra gente abrir o estúdio porque eu tinha certeza de que ia dar certo. Aquilo contribuiu muito para minha caminhada como produtor. Foi onde eu aprendi a ser engenheiro de som. Quando terminei o colégio, meus pais nem perguntaram o que eu ia fazer, porque já estava tudo encaminhado.

Você aprendeu na prática, então?
Na marra. Como eu era proprietário do estúdio, conforme a gente comprava os equipamentos eu ia entendendo como funcionava. Na falta de um engenheiro comecei a me desdobrar nisso também, e na falta de produtores, porque as bandas eram pequenas, acabava produzindo sem perceber. Nesse período, devo ter pelo menos uns 100 discos que gravei e não assinei.

Então você era do punk rock...
Quando eu era muito menino, mas isso foi importante pra minha formação, o punk e o skate. Foi o skate que me fez ouvir rap, jazz, soul, funk... a galera ficava meio chocada... antes era segregado. Isso ajudou muito a minha circulação. Eu trabalhei com Ratos de Porão, Clube do Balanço, Ivete Sangalo, Criolo... coisas diferentes, mas ao mesmo tempo achando do caralho!

Como criar uma linguagem para discos de bandas tão diferentes?
Quando vou produzir um disco, a primeira coisa que faço é me questionar se vou acrescentar algo. Às vezes pode ser um artista incrível, mas que eu não possa acrescentar nada. Quando termino um disco, ouço e dá pra perceber que fui eu que produzi. Pra mim, esse é o resultado. Não tem que ter a minha cara - o papel do produtor é fazer com que o artista chegue aonde quer chegar. Mas acho que quando a pessoa me chama para produzir ela quer um pouco da minha sonoridade.

Como você enxerga a atual produção musical?
A internet deu uma abertura muito grande e todo mundo fez o que estava a fim de fazer. Isso abriu um leque incrível de oportunidades sonoras, de divulgação, de muitas coisas. Mas agora as pessoas se prenderam um pouco e deixaram a parte criativa de lado. Estamos num momento que, criativamente, não é o melhor do Brasil. Está faltando chegar gente nova, ideias novas, novas formas de trabalho. A indústria de grande porte faliu completamente. Já existe outra forma de trabalhar, mas infelizmente já tem uns vícios de mercado como subsídios, SESCs, Rouanets... As pessoas estão acomodadas nisso. Precisa voltar a fazer show, ter um público... Tem que entender o mercado musical como uma coisa sustentável e não que deva ser bancada por alguém. Aqueles milhões que rolavam no mercado musical, na minha opinião, é meio que nem o que fode o futebol, sabe? Começa a ter uma visão muito mercadológica dentro de um negócio que é uma arte, cara. Enquanto não tem dinheiro tá tudo bem, aí entra dinheiro, começa a tretar.

Com o que você gasta sua grana?
Disco. Coleciono enlouquecidamente. Tenho uns 3.500 discos, comecei a colecionar moleque. Comprava disco com meu pai, mas foi sempre uma paixão da vida, não tenho dúvida para responder. Sou taurino, na verdade, então gosto de comer num lugar legal, ter uma casa confortável, ter um som bom em casa, tomar um bom vinho. Tenho um disco que é o xodó da minha coleção que é do Lee Perry, se chama Super Ape; consegui pegar a prensagem original do disco que é super-rara, mas não é o disco favorito do mundo, está na lista.

Qual sua opinião sobre esses apps de música streaming?
Eu uso. No meu telefone não tenho praticamente nenhuma música, só ouço em streaming. Ao mesmo tempo não acho que seja um parâmetro porque não tenho nem CD player em casa. Ouço música só no digital ou vinil. Uso porque sou apaixonado por música, gosto muito de ouvir o tempo todo e acho sedutora a possibilidade de você ter um banco gigantesco no seu dispositivo disponível para ouvir na hora que quiser. Infelizmente, a monetização disso, a forma como os artistas estão sendo remunerados por isso, ainda não é justa. Talvez por ser algo novo. No mundo todo, rola uma caixa-preta. No Brasil é uma palhaçada no que diz respeito à prestação de contas de direitos autorais.

Você sofre muito assédio das fãs?
(Risos) Hoje em dia eu trabalho com o Criolo, e ele é um cara muito assediado. Ele é um cara bonito, que tem todo um discurso, é muito sedutor o jeito que ele fala. O parâmetro de assédio que eu tenho é esse... Então eu sou porra nenhuma (risos)! E tá bom assim, porque também é uma situação um pouco desesperadora às vezes.Você nem sempre sabe quem está do seu lado! Nesse sentido acho que ocupo uma posição confortável, que é o fato de as pessoas conhecerem meu trabalho, e não ser famoso. Algumas coisas que me irritam é quando você tá tocando e tem aquela menininha da primeira fileira tirando uma selfie com você de fundo! O assédio "te acho um gato" é legal, mas o parâmento pra mim é muito diferente. Porra, você tocar com o Criolo e acompanhá-lo direto, é muito maluco ver como esse fanatismo acontece.



BEBIDA DA VEZ_
Enquanto conversava, Daniel Ganjaman preferiu molhar a garganta com a boa e velha cervejinha gelada, um clássico do Bar do Biu.

Bar do Biu_ Rua Cardeal Arcoverde, 772/776 - Pinheiros, São Paulo, SP - Telefone: (11) 3081 6739



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