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Elza Soares

Uma das maiores vozes da música brasileira fala de sua felicidade com o lançamento de seu novo disco, relata como está superando a recente perda de seu filho, afirma que se sente subestimada e fala abertamente sobre racismo

por_ Juliano Coelho / fotos_ João Wainer


Elza Soares

Como está a expectativa para o lançamento do disco (a entrevista foi feita em setembro, antes de Elza lançar o disco "A Mulher do Fim do Mundo")?
Cara, tá lá em cima. Estou muito otimista porque é um disco de inéditas. Os arranjos são muito modernos.

Sua música evoluiu com você, né?
Ah, vem crescendo. Vem tomando uma proporção muito grande. A gente não pode ficar no mesmo lugar, né? A música é tão grande, é tão volumosa, que você não alcança nunca. Eu quero buscar, eu vou longe, eu quero saber onde que tá. Isso tem me prejudicado um bocadinho também, sabe?

Por quê?
Porque acham que eu não tenho estilo. Mas acho que não ter estilo, pra mim, é bom. Mostra que eu sou versátil. Mas pra muita gente eu tinha que ser sambista, né? Não posso ficar sentada, na beira da praia, com violãozinho também.

Você tem ideia do tamanho de toda a sua história?
Acredita que eu não tenho? Não tenho e não quero ter. A estrada é longa. Se eu ficar parando pra ver o que aconteceu pode ser que eu me perca.

Quando você percebeu que tinha esse jeito de cantar tão característico?
Esse jeito à la Louis Armstrong? É lata d'água na cabeça. Fui desenvolvendo e chegou onde chegou. Gozado, estou ainda me segurando muito, porque tem dois meses que perdi um filho (Gilson Soares morreu com 59 anos). Estou ainda suspirando bastante forte, dói muito. Mas não pude fazer nada.

Mas você é notória por superar?
Supero mesmo. Nem sei te explicar como, mas eu supero.

E o fato de você estar lançando disco é um jeito de lidar com a dor, né?
Eu não parei de trabalhar desde que operei a cervical e a lombar há um ano (Elza passa pela segunda tentativa cirúrgica de tratamento de uma fratura causada por uma queda de um palco, em 1999). Tenho de fazer muita fisioterapia. Tem isso também. A música tem sido minha terapia. E eu também tive a ajuda de uma amiga muito, muito querida, a Tânia Alves (cantora e atriz), dona do spa Maria Bonita. Eu fui pra lá pra me recompor. Pra me achar, porque eu não sabia onde estava pisando.

Você sempre gostou de trabalhar com as pessoas das novas gerações. Queria saber como conheceu esses parceiros do novo disco?
Foi o Guilherme Kastrup (produtor e baterista)... Esse trabalho já vem de antes, quando fiz um show com o Cacá Machado e o José Miguel Wisnik. E surgiu essa ideia de fazer um trabalho novo pra mim. E eu não esperava que acontecesse tão rapidamente e que ficasse tão bom, tão visceral. Está muito, muito bom. Um CD pra ninguém botar defeito. Os arranjos são lindos. Só tenho que ficar feliz.

Como foi sua infância?
Nasci na Vila Vintém e fui criada na Água Santa, no Engenho de Dentro, RJ. Tive uma vida de criança pobre, mas criança que pula corda, que solta pipa, que solta pião, que brinca? Fui muito pobre, mas muito feliz, porque brinquei muito. Tinha muita cantiga de roda linda, tinha os pais que contavam histórias.

Nas cantigas de roda, você já via que tinha uma voz privilegiada?
Já, sim! Eu já entrava cantando. Eu atropelava meu pai às vezes. Ele começava a cantar e eu já chegava atropelando. Cantiga de roda é uma coisa muito linda porque é uma ciranda, né? É muito gostoso de se cantar. As melodias são lindas, riquíssimas.

Quando você começou a perceber a questão do racismo?
Desde criança. A minha mãe era lavadeira e não podia entrar pela porta principal do prédio. Ela só usava o elevador dos fundos. Até que um dia um porteiro, por maldade, falou com minha mãe que ela podia entrar no prédio. Mas ele não nos avisou que o elevador de serviço estava escangalhado. Minha mãe caiu no fosso. Eu gritei muito, fiquei desesperada, fiquei feito louca pra que tirassem minha mãe de lá. Quando tiraram, ela estava toda arranhada e ele disse: "Vai ter que ser esse elevador, vocês não podem usar o outro. Aquele é o elevador principal". Ali, eu já comecei a sentir que tinha alguma coisa estranha. Não sabia que era racismo, lógico, mas já senti algo estranho.

E como você vê essa questão hoje? Ainda é muito forte?
Muito forte. Hoje todo mundo grita, fala que não, mas o racismo tá aí na cara de todo mundo. Tá muito presente. Mas acho que alguém ainda vai nos ouvir. Alguém tem que ouvir isso melhor. E tem que falar, não pode ocultar, não. Porque, quando você fala, é ouvido. Quando você se cala, naturalmente permite.

Você engravidou muito cedo (Elza teve seu primeiro filho com 13 anos). Queria que você falasse como a gravidez na adolescência afetou a sua vida.
Afetou de uma maneira que eu só fui entender depois? Assim, na época, a vida de menina pobre - hoje não, hoje mudou, mas na minha época era muito diferente - era afetada pela gravidez, mas a gente continuava trabalhando em fábrica enquanto o filho estava em casa? E assim a gente ia vivendo.

Outra questão comum entre as mulheres que se casaram na adolescência é a da agressão. Você foi agredida?
Olha, já fui, sim. Mas a recíproca era verdadeira. Eu não sabia nem que tinha esse negócio de dar queixa. Não existiam os direitos da mulher. Existia assim: você ia pra delegacia, dava queixa, seu marido ficava solto e era pior. Mas comigo não era assim, não. Era por causa de criancice mesmo: porque eu soltava pipa, jogava bola, pulava corda?

Ou seja, você queria continuar?
Continuar com a minha infância. Com a minha criancice. Só que ele achava que eu deveria entender que era uma mulher de casa e eu não achava nada disso. Eu falava: "Não, vou brincar", botava o neném em casa, num cantinho, e ia brincar.

Sempre rebelde, né?
Fui uma criança muito rebelde, desobedidente, sabe? Quando diziam: "Isso aqui tá certo", eu dizia: "Não, certo é isso que vou fazer agora". E assim foi a Elza até hoje. E, se falam que eu vou quebrar a cara, eu digo: "É bom quebrar a cara porque só assim eu sei".

E, de vez em quando, quebra-se a cara pelo caminho que todo mundo quer que você vá também, né?
Lógico. Vou pelo meu caminho, porque se eu quebro a cara fui eu que escolhi, não foi ninguém que me guiou. Não vou brigar com ninguém, vou brigar comigo mesma.

E o que você gosta de fazer quando está descansando?
Ouvir música? Ouvir Chet Baker. Gosto de dar palpite na cozinha também. Gosto de cozinhar e gosto de comer tudo. Cozinha, pra mim, é um território inexplicavelmente bom.

O Garrincha foi o homem que você mais amou?
Sim, certamente.

No começo da relação de vocês, ele era casado e o pessoal era contra, né?
Sim, só não sabiam que ele tinha outra mulher.

Uma terceira mulher?
Lógico. Ele se envolveu com uma vedete da época. Ela que tinha que pagar por isso, não eu! Mas a vida é isso. Não adianta tentar controlar. Não tem como raciocinar e falar: "Não quero isso". É o que você escolheu e "vambora". A vida é noite, manhã, dia, tarde, noite, manhã, dia, tarde, e assim você vai vivendo.

Planejar muito é bobeira?
Bobeira. Eu acho que tem que fazer logo. Não sou de ficar planejando, não. Às vezes nem vai dar tempo, então é melhor já fazer logo.

Você e o Garrincha formavam um casal tempestuoso, né?
A gente ficava maravilhosamente bem. Ele era um homem bom, sensível... Se não fosse a maldita bebida... Ele era uma pessoa maravilhosa, uma pessoa que não dava trabalho. Tivemos dois grandes jogadores de futebol: ele e o Pelé.


"Não pode ocultar (o racismo), não. Porque, quando você fala, é ouvido. Quando você se cala, naturalmente permite."


Imagino que devia ser emocionante vê-lo jogando futebol?
Eu ficava feito louca, acendia vela, fazia promessa, ficava de joelhos, tudo pra que ele se saísse bem. E, graças a Deus, sempre se saiu bem. Nunca vi o Mané se sair muito mal, não.

Como você lida com o álcool hoje, depois de ter vivido com ele?
Tenho pavor do álcool. Não bebo. Acho que é uma droga tão filha da mãe e fácil de ser comprada. Vai te matando aos poucos. É horrível. Meu pai bebia, depois o Mané bebia? Quando o álcool vicia é triste demais. A pessoa bêbada não tem controle. Ela faz coisas incríveis, prejudiciais. Fica muito agressiva.

Você é muito vaidosa, né. Como está sua vaidade hoje?
Cara, minha vaidade hoje está concentrada na coluna. Estou muito mais focada na coluna, no tratamento, na fisioterapia, do que propriamente na vaidade. Claro que continua, né? Tô menos teimosa, mais atenta ao que o médico diz.

A previsão do seu tratamento é que você melhore totalmente?
Pode durar de seis meses a um ano, pra começar a andar melhor. A garganta tá ótima, tá no lugar, o que é ótimo.

Elza Soares

E sua interpretação? Se alguém perguntasse: "Elza, quero cantar como você", o que falaria pra essa pessoa?
Difícil, não sei o que iria falar. Cada um tem um jeito. A primeira coisa é que você tem de ser mais humilde. Porque existe muito isso: a pessoa começa a fazer sucesso e logo já levanta a cabeça, o nariz vai pra cima? Aí começa a perder tudo. Falaria pra pessoa estudar muito, apesar de eu não ter estudado. Se eu parasse pra estudar, não estava aqui hoje. Como iria estudar, se eu não tinha dinheiro, né?

Como aquela história famosa do começo de sua carreira, de quando você foi no programa do Ary Barroso?
Sim, quando eu cheguei no programa, não fui muito bem recebida? Assim que cheguei no palco, o Ary perguntou: "De que planeta você vem?", e eu disse: "Planeta fome". Ali acabou toda a gracinha e acabei abraçada por ele, que disse, no fim de minha performance: "Aqui nasce uma estrela". Rapaz, que medo que eu tinha dessa tal de estrela. Pensei: "Se essa estrela cair em cima de mim, vai ser um desastre". Olhava pro lado e pensava: "Cadê essa estrela que ele tá falando?". Não sabia que eu seria uma estrela.

Você se considera uma mulher brava?
Brava, não sei? Mas não sou muito tranquila também, não.

Acho que essa é a resposta de uma mulher brava (risos)
Acho que é, né? Será, cara. Sei lá. Se um negócio não tá bom, ou para de fazer ou então não vai dar certo.

Você foi eleita a cantora do milênio pela BBC. É um negócio imenso. Você acha que merecia mais reconhecimento do que você tem aqui no Brasil?
Acho que sim. Lógico. Bem mais. Mas tá bom do jeito que tá também. É um "tá bom" que não tá bom. É melhor uma boa conversa do que uma péssima briga? entendeu? Eu sou muito amada por quem me cerca. Isso pra mim já é suficiente. Eu recebi antes de ontem uma mensagem da Taís Araújo. Uma gracinha, né? Uma mulher talentosa, maravilhosa... Dá muita força. Assim como esse CD novo. Depois de tantos anos, lançar um disco novo só com parcerias de compositores de São Paulo. É maravilhoso.

E você é um ícone carioca e agora está gravando com um pessoal de São Paulo. Como é essa história?
Acho que é uma maneira de agradecer a São Paulo. A minha carreira - e de muitos artistas - começou aqui em São Paulo, nos grandes festivais da Record. Daqui saiu a Elza Soares. O disco ficou bem a cara do Brasil. Não vejo tanto essa diferença de Rio pra São Paulo, de São Paulo pra Minas? Acho que tá todo mundo junto e misturado.

O que você procura na hora de escolher um repertório?
Quando sei que posso cantar bem aquela música. Quando fala um pouco de mim também. Esse CD nasceu no chão lá de casa, em Copacabana. Estávamos sentados no chão e escolhemos o repertório. O Guilherme Kastrup foi lá pra casa e levou as músicas pra gente escolher: eu, ele, o Celso Sim e o Rodrigo Campos. Saiu essa beleza toda.


"Assim que cheguei no palco, o Ary (Barroso) perguntou: "de que planeta você vem"? e eu disse: "planeta fome"."


Eu posso imaginar a quantidade de compositor que não quer ter uma música interpretada por você?
Por isso, o Kastrup fez uma seleção. Gostei de todas, mas não posso cantar 300 músicas. São letras difíceis e arranjos modernos, mas me senti à vontade pra cantar.

Tem muita história de você ?roubar o show? de outro artista, no melhor sentido da palavra?
Pois é. Eu vou com a maior simplicidade do mundo, te juro. Vou com moderação. Mas alguma coisa acontece. Não sei o que é, mas acontece. Só o Caetano que sabe, né?

Você toma o palco pra você?
Tomo? Pronto, já foi. E sentada, hein?

Ficar sentada nos shows não tem te incomodado?
Incomoda um pouco, mas não muito, porque o canto sai da garganta pra cima. Então, tudo bem. Gravei esse CD inteiro sentada praticamente. E a voz tá aí, graças a Deus.

Você sempre foi muito sexy no palco, sempre foi uma marca sua...
É, né? Mas sentada fico sexy também (risos). Bem sexy. Dou uma mexidinha pra cá e pra lá. Quando falo, quando canto. Dá certo.

Como foi a vida na Europa?
Imagina eu e o Mané em um país desconhecido, com uma língua desconhecida. Imagina esse homem com uma gaiola de passarinho na mão querendo andar de bermuda, camiseta e chinelo. Não dava, pobrezinho. Pensei: "Se ele não for embora para o Brasil, ele morre aqui". Ele não se adaptou por nada. Por isso minha relação com Chico Buarque e Marieta Severo foi muito importante em minha vida. Não tem nem o que falar da Marieta. Amicíssimos. Fiz alguns amigos italianos também, mas não é a mesma coisa.

Chico Buarque, a propósito, foi um grande parceiro seu, né?
Sim, um grande parceiro. Chico Buarque foi um parceirão na vida, na música. Amigo mesmo. Chico Buarque de Hollanda: não tenho palavras. Em Roma foi meu grande amigo.

Quais suas paixões além da música?
Tenho paixão pela cozinha. Só não tô podendo cozinhar agora. Adoro música, Chet Baker e? amo minha família. Copacabana também é uma paixão grande. Fico apaixonada. É lindo. Eu fico lá em casa admirando Copacabana, babando com a vida, com as pessoas... Eu não moraria num lugar tranquilo, muito quieto, porque acho que morreria. Eu gosto de ver as pessoas, o movimento? Porque eu sempre malhei muito, corri muito, escalava. Eu vejo as pessoas fazendo isso e digo: "Que ótimo, que bom". Quero ver a vida pulsando. Até abençoo, de tão bonito que é.

Tem algum prato específico que você goste de preparar?
Gosto de preparar um jiló. Jiló bem preparado é um prato dos deuses. Eu faço como uma lasanha de jiló: camadas de jiló, de molho e de queijo parmesão. Depois levo ao forno. Quando corta e vem aquele queijo e aquele molho, é incrível.

Mas jiló é meio polêmico, né?
Tá vendo? Eu gosto de jiló porque é polêmico. Adoro. Talvez se não fosse polêmico, eu não gostasse tanto. Me pergunta se eu gosto de morango? Todo mundo gosta, não gosta? Menos eu. Não faz graça nenhum pra mim. Se vem vermelhão, bonito, não quero: é agrotóxico.

Quando você pegou essa receita?
Na Itália. Foram brasileiros de lá que me deram essa receita. Caprichei ainda mais, porque meu jiló ainda leva ovo. Fica mais delicioso. Bem nutritivo.

O Mané gostava do Jiló?
Gostava. O que eu fizesse tava bom. Não tinha nenhuma frescura. Você acredita que, quando começaram a fazer aqueles prédios na Vieira Souto, no Rio, mandaram pra ele uma série de plantas e desenhos pra ele escolher um pra ele? Ele disse: "Quero, não. Deixa pra lá". Eu não podia dizer: "Eu quero", porque foi oferecido a ele.

Iam dar pra ele?
Bem que eu queria que ele aceitasse. Mas o não dele valia muito, né?

Mas foi por orgulho?
Não, por pureza mesmo. Ele era muito simples. Chegava a ser simplório, de tão simples que era. E, quando você vai contra uma pessoa simples, você mexe no orgulho dela, né?

E o que fez com que ele estivesse entre os homens de sua vida?
Era essa simplicidade dele. Esse jeitão não sei se caipira, mas aquele jeitão moleque, de um homem simples. Ele não sabia a força que tinha. Isso me atraía muito.

Por toda a sua vida você foi um símbolo sexual, muito desejada?
Muito desejada e muito amada. Amei muito, né?

E como você lidava com o assédio masculino?
Ah, quando dava pra entender alguma coisa, tudo bem. Quando não entendia nada, já foi. Quando me agradava, me agradava muito. Quando não me agradava, não me agradava nada. E assim foi. Fui muito sexy, era motivo de muitos homens, né? Mas eu sabia tirar de letra. E como. Se não soubesse, tava ruim a coisa.

Se fosse pra deixar um cara ali de escanteio, você deixava?
Deixava mesmo! Mas quando servia, também não deixava, não.

Elza Soares



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