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FACUNDO GUERRA

por_ Bianca Castanho / fotos_ Gui Gomes


Facundo Guerra

Mudou o lugar da entrevista em cima da hora, né?
Isso acontece, minha vida é uma correria. O que acontece comigo é que meu trampo e o meu eu, aquilo que eu reconheço como identidade, se confudem. Sou aquilo que eu faço. Isso é de um capitalismo mais recente. Muitos serviços acabaram se redimensionando. Isso significa que estão estetizando produtos que eram da indústria, o que era uma commodity começou a se refinar. Algumas pessoas deixaram o mundo corporativo, não queriam mais perseguir um estilo de vida que as fizesse consumir e vender 12 horas da sua vida para uma corporação e gerar lucro. Elas entenderam que isso não as fazia feliz. Tenho 42 anos, talvez tenhamos sido os primeiros a chegar à conclusão de que não aguentávamos mais o mundo corporativo. Comecei a ficar cada vez mais austero no meu estilo de vida e preciso viver bem, apenas. Não quero ser celebridade vendendo minha imagem.

Não acaba sendo uma consequência?
Não, porque eu controlo isso. A Rede Globo está fazendo uma novela que se passa em SP. Fizeram uma pesquisa e identificaram que eu sou um paulistano que eles queriam ouvir porque querem montar um personagem meio parecido comigo. Alguém me ligou, disse que queria usar minha imagem e queriam saber quando eu podia ir para lá. Eu não vou para a Globo. Não quero viver da minha própria imagem e, eticamente, não me alinho com a Globo. Eu me sentiria sujo. Tenho uma visão ética do mundo. A minha ética pelo menos, não estou dizendo que é a certa. Não quero ser conhecido por ser conhecido, eu quero que o meu trampo seja reconhecido, e que eu tenha absoluta liberdade para falar o que penso. Sou um articulador, seja de dinheiro ou o caralho que o parta, isso gera uma responsabilidade fodida.

Você deve estar cansado de ouvir isso, mas como se tornou essa pessoa que você é hoje, empresário da noite?
Nunca tive qualquer tipo de empatia com a noite, com o álcool, nenhuma ligação. Foi um acidente. Uma coisa que eu sempre fui bom desde a minha época de engenheiro foi resolver problemas. E problema você resolve tanto em uma padaria quanto numa boate. Depois que comecei a ver o Vegas (extinta casa noturna de Facundo) como um espaço de convivência em que as pessoas vão por escapismo, comecei a pensar em como eu poderia ajudá-las a ter essa experiência cada vez mais intensa sem os percalços do dia. Você ter que pegar fila para o banheiro ou pra pagar a conta são pequenos choques de realidade. Fui tentando diluí-los.

Nunca foi um fetiche seu ser um empresário badalado (Facundo é dono de casas como Cine Joia, Z Carniceria, Bar Riviera, Panam Club, Volt, Yacth, Frank e Mirante 9 de Julho)?
Tenho até um pouco de vergonha desse título. A imagem que as pessoas fazem dos donos de casa noturna é sempre uma pessoa viciosa, cocainômano, mulherengo, bêbado, putanheiro, e durante muitos anos alguns empresários foram assim. O Al Pacino em Scarface era dono de casa noturna, n'O Poderoso Chefão tinha dono de casa noturna. Agora tem uma nova geração que vê a casa noturna com um profissionalismo que não é diferente do de uma padaria.



Facundo Guerra


Rolou uma polêmica na Lions sobre mulher pagar mais barato que homem. O que você achou disso?
A Lions é uma locação, então vem promoter que aluga a casa para fazer a sua festa, e a política de preço sempre foi do promoter. Isso não quer dizer que eu não seja conivente, apesar de achar eticamente errado. Mas minha sensibilidade com relação às lutas por igualdade, a luta das mulheres, mudou de uns anos para cá. O feminismo era visto como radical, hoje em dia os homens que são um pouco mais conscientes entendem o feminismo não como um movimento de oposição ao homem, mas uma luta por direitos iguais. Qualquer homem que tenha uma mãe, uma irmã, uma filha entende. Eu tive uma filha, e eu quero criá-la para que ela seja uma feminista, porque isso se constrói em casa. O racista não nasce racista, as pessoas são educadas desse jeito. São transformadas em racistas, machistas, homofóbicos. Se você observar quais são os mitos fundadores dos homens, o que uma criança gostaria de ser, o seu mito espelho, o menino vai se vestir de Batman, Superman. Que são seres mitológicos, deuses ou semi-deuses de potência, de transcendência, que são mais que homens. O homem é ensinado a conquistar, ser mais forte que os outros, transcender sua própria humanidade. Você olha para as meninas, elas estão vestidas de princesa. Quando você olha os novos mitos, tem Frozen, Valente... Acho que só. As princesas clássicas são Branca de Neve, Bela Adormecida. Ela também vai cair nas princesas clássicas, que é aquela velha punheta de um homem que as salva. Olha a Branca de Neve. Um homem troca contato com a Branca de Neve, mas não liga pra ela. Eu sou um homem crítico, razoavelmente inteligente, e tenho todos os meus alertas ligados para essa coisa da exclusão. Não sou um cara comum, típico macho alfa. Tento escapar dessa armadilha. Eu li Branca de Neve assim: uma rainha, que tem uns 35 anos, descobre que existe uma mulher mais jovem, a Branca de Neve, que tem 15 anos, que é mais bela que ela. Então ela manda matar a Branca de Neve, porque a velhice não é boa, a beleza só está na juventude. Ela já tem 35 anos, está desesperada. Aí ela manda o caçador arrancar o coração da Branca de Neve.

Você contou assim para sua filha?
É assim que a história está contada! Você tem que entender como esse mito está sendo criado para a minha filha, o conceito de mulher. O caçador vai matar a Branca de Neve e fica com peninha. Aí ela foge para a floresta, entra em uma casinha e descobre que pertence a sete anões. Ela resolve tirar uma soneca. Os anões chegam, olham para ela e pensam: "Olha, é uma mulher! Se você lavar, passar e cozinhar, a gente te deixa ficar aqui!". Ou seja, é transformada em escrava. Tem que cozinhar para sete homens, e não importa se eles têm 1,20m ou 1,80 m. Para escapar da morte, ela é escravizada por sete anões! Que bizarro. Aí a bruxa descobre que a Branca de Neve está viva, dá a maçã, ela come e capota na floresta. Um príncipe que ela nunca viu na vida passa, olha, acha ela bonita, vai e a beija. Ele deita em cima dela e dá um beijo com ela desacordada. Isso é um simulacro de estupro! A Branca de Neve é estuprada, e acha perfeitamente normal que um homem a beije enquanto ela estava dormindo! Pois bem, a gente ensina para uma menina de três anos que a beleza dela vai terminar aos 30 anos, que se ela quiser se salvar disso precisa casar e cuidar de uma família de sete anõezinhos, e que provavelmente ela vai ser estuprada ao longo da sua vida e é melhor não reclamar. E ó, Cinderela escrava, Bela Adormecida estuprada, a Bela e a Fera, Síndrome de Estocolmo (quando o sequestrado se apaixona pelo sequestrador). O que a Fera faz com a Bela é de foder, a maltrata o tempo inteiro. E todas as meninas de três anos estão usando vestidos dessas princesas! Mais tarde elas vão romper com esses padrões, mas você ensinou para elas que isso é o normal. E se elas forem estupradas, escravizadas, trabalharem uma jornada de trabalho e tiverem que lavar a louça sem ajuda do companheiro, isso é normal. Não é. Esses livros deveriam ser queimados em praça pública! É assim que você forma um machista ou uma mulher que não tem a menor ideia de por que essas coisas acontecem com ela.

Isso acaba se aplicando no lance da diferença de preço.
Sim, e aí a lógica machista diz que isso é gentileza, mas ninguém perguntou para as mulheres se elas queriam essa gentileza. Existe um cavalheirismo que é interesseiro. Por exemplo, vou em um date com uma mulher num restaurante de comida japonesa. No final eu pago a conta. Eu faria isso se fosse um homem na minha frente? Acho que não. O que eu estou querendo fazer se estou te levando para um restaurante que costuma ser caro e pago a conta?

Você está querendo me comer.
Exato. Eu tenho essa coisa de pagar a conta por uma razão muito simples: infelizmente, na nossa sociedade, eu ganho mais que uma mulher. Se eu posso, vou fazer essa gentileza. Eu sei que a mulher pode abrir uma porta, e é uma expressão de machismo eu abrir? É. Eu sou machista, eu preciso desarmar esse machismo o tempo inteiro. Não adianta eu ficar apontando o machismo nos outros e não falar de mim. Eu não sou racista? Sou branco, fui criado em um país que a maioria é negra e vive em condições inferiores de desigualdade. Isso tem que ser desarmado o tempo todo. Não quer dizer que eu não tenha culpa, porque eu tenho também. Você nasce com uma carga e tem que lutar contra isso. O meu machismo, meu racismo, a minha homofobia acho que já consegui desarmar, porque nunca me liguei muito com o hétero normativo cis clássico, nunca gostei de futebol, nunca bebi, nunca gostei de carro... É uma responsabilidade muito grande criar uma menina! Os meninos são vistos como energéticos, e as meninas são vistas como calmas. Elas são feitas desse jeito, são castradas desde pequena! Você corta a energia de uma menina, faz com que a criança seja um bonsai, começa a podá-la para ter a sua imagem e semelhança. É bizarro! Por isso que a maior parte produz imbecis. Pessoas idiotas vão criar idiotas. Como eu explico o gay para minha filha se ela sabe que rosa é menina, azul é menino? Como você quebra esse padrão de dois? Você diz que todo mundo é igual, independentemente da cor de pele, mas quando ela vai para a escola todo mundo é branco e a faxineira é negra. Por que todo mundo que atende é negro? Eu me deparo com esses desafios o dia inteiro. Se quero explicar o mundo, não posso simplificar.

Qual a sua relação com a religião?
Acho completamente castradora, um mal que temos na Terra. É óbvio! Quanta gente morreu por causa disso? Qualquer religião é mentirosa, só para cumprir a ideia de que tem um pai que manda na gente o tempo inteiro. Isso é um trauma mal-resolvido. Eu não preciso de um Deus para me dizer pra não fazer com os outros o que eu não quero que façam comigo! Até esse Deus que as pessoas acreditam, você pode fazer o mal e é só pedir perdão e pagar o dízimo que tá tudo certo.

Como você vê a morte?
Como o fim de um processo químico. A gente tem caos, um pouquinho de ordem, e volta para o caos. Mas não acredito em vida após a morte. Eu sou agnóstico. É muita pretensão acreditar que um primata que desenvolveu um cérebro um pouquinho a mais, em um planeta ínfimo no universo, transcende tudo e migra através de uma alma. Isso é besteira. Todas essas criações são necessidades que temos para justificar nosso fracasso, nosso medo da morte. É insuportável a ideia de que somos apenas animais. Eu nem acredito que a gente é o último estágio.

Você acha que vem mais coisa?
Eu estava pensando nisso outro dia. Gosto muito de ficção científica e todas as vezes em que pensamos em ETs, pensamos em hominídeos, seres com olhos grandes, cabeçudos, braços longos, que vão viajar acima da velocidade da luz. A gente acredita que qualquer evolução orgânica do nosso corpo parte do refinamento do próprio corpo. A cabeça fica maior pois o cérebro é maior, sei lá. Mas nas primeiras manifestações de agora, o que as pessoas estão fazendo? Implantando ímãs no seu próprio corpo! Substituindo seus corpos por próteses, inteligência artificial. Por que a nossa evolução tem que ser orgânica? Ela não deveria ser inorgânica? Aquilo que vai nos suceder não é orgânico, e vai ser uma produção nossa, vai se desgarrar da gente. Essa consciência vai se separar de nós. O processo físico-químico é muito dispendioso, a gente tem que comer três vezes por dia, tem que dormir, mijar, viver uma vida perseguindo um parceiro sexual. Olha a quantidade de energia que você perdeu atrás de um parceiro! De repente os aliens já estão aqui, mas não conseguimos identificar porque estamos sempre olhando para nós mesmos. Se formos procurar uma inteligência artificial, vamos procurar uma inteligência parecida com a gente, porque não conseguimos assimilar que não somos o centro do universo. Mas ela é tão superior a nós que nem conseguimos enxergar. Como você acha que os bandeirantes dizimaram os indígenas? Eles não viam o outro como humanos! Eu tenho ódio de termos o mito fundador como o Borba Gato, que era um genocida. Ao mesmo tempo, como eu vou julgar o Borba Gato? Ele não é o mesmo homem que eu sou, o homem do século 17 é diferente. Picharam a estátua do Borba Gato, e eu comemorei. Mas depois eu pensei "que escroto", porque é difícil você julgar um homem tão diferente. Quando a gente estiver no século 25, vão nos julgar como bárbaros, a gente come carne. É um traço de barbárie.

Qual é o sentido da vida?
Você tá me fodendo, né? A vida não tem sentido nenhum. Eu não procuro sentido nenhum na vida, porque que sentido a vida tem? É muita pretensão achar que a vida tem uma direção que você controla. O melhor que você pode fazer é ser ético e tentar transformar as pessoas ao seu redor, mudar o seu bairro. É amar, ser feliz, tentar mudar um pouco o mundo. O que mais um humano pode querer além disso?



Facundo Guerra



BEBIDA DA VEZ_
Facundo, que não bebe álcool, optou pelo Soda Cranberry (R$ 13), que leva limão, cranberry, hortelã e água com gás

Z CARNICERIA_ Avenida Brigadeiro Faria Lima, 724, Pinheiros | São Paulo, SP. | Tel 11 2936 0934




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