ASSINE SEXY CLUBE
Pesquisa

JOSÉ SILVÉRIO

por_ Juliano Coelho / fotos_ Chico Max


José Silvério - Entrevista - Revista SEXY - por_ Juliano Coelho - fotos_ Chico Max

Qual foi o último jogo que você transmitiu?
Ontem (dia 5 de julho, domingo) eu estava no Morumbi, em São Paulo e Fluminense (o jogo foi 0 a 0)...

Joguinho ruim, né?
Jogo horroroso! Estava conversando com o Oscar Ulisses, da Rádio Globo, e o Deva (Pascovicci), da CBN, e estávamos falando da nossa profissão: o futebol está no fundo do poço. O Morumbi ontem estava vazio. Foram 10 mil torcedores... O Morumbi vazio fica horrível, o estádio já está feio, né? Muito mal-acabado... Aí a gente estava comentando: "E aí, o que nós vamos fazer?". Eu falei: "Olha, tenho uma vantagem bem grande sobre vocês: eu tô 'véio' (risos)".

E o nível técnico do futebol está difícil, né?
Hoje estava lendo uma coisa no UOL pra fazer o comentário do fim da tarde na rádio e vi que o Clarín estava metendo o pau no Messi, dizendo que ele não é líder na hora que o time precisa. Pô, então manda ele pra nós! O nosso líder pipocou. Ao menos o Messi jogou e foi vice-campeão. Tem um amigo meu lá da Bandeirantes que, quando acabou o jogo de Argentina e Paraguai, que foi 6 a 1, disse: "Ainda bem que não passamos porque o vexame seria outra goleada, mais ou menos na mesma época do 7 a 1 da Copa de 2014..." Já pensou perder pra Argentina de 6? Aí fecha, né?

Como foi narrar o 7 a 1?
Foi muito engraçado. Não tinha como animar o pessoal pra ver o jogo. No segundo tempo, nós ficamos conversando, fizemos pesquisa pra ver se tinha acontecido isso alguma vez, mas nada nem próximo.

E na hora de narrar o sétimo gol da Alemanha?
Já estava torcendo pra ser mais, viu? Que fossem uns 12 (risos). E o comentário dos jogadores de lá é que eles tiraram o pé porque ficaram com pena. Isso é pior ainda!

Quando você pega um jogo ruim é difícil de narrar? Ainda gosta?
Ontem, por exemplo, o que é que a gente faz? Você tenta fazer alguma coisa, dar uma embalada. O duro é quando você pega um jogo ruim assim e tenta, tenta, tenta dar umas embaladas e aí o jogo vai e te murcha de novo. Se você acompanha o jogo de ontem e passa pro seu ouvinte o que estava realmente acontecendo é ruim pra você, pra sua profissão e pro futebol. Se exagerar, corre o risco de se tornar mentiroso. Isso está, então, me obrigando a fazer uma coisa diferente, inédita, na minha carreira. Uma coisa com, entre aspas, um pouquinho de mentira pra não ir tão fundo no que está acontecendo, porque não tem nada! Você vê, teoricamente, o melhor jogador do São Paulo é Rogério Ceni, que tem 42 anos! É por isso que eu falo que tem que mentir um pouquinho...

Você é um Rogério Ceni do rádio...
É... Só que ele está falhando mais que eu (risos)! Andou tomando uns gols aí...

E como você criou suas marcas registradas e jargões?
Eu tenho um amigo de Lavras (MG) que diz: "Desde que eu te conheço por gente, você anda na rua irradiando futebol igual louco aí". A coisa da rapidez e da descrição do jogo é algo físico que eu tenho, consigo fazer. O grande mérito que eu tenho talvez seja conseguir passar aquilo que eu tô vendo com rapidez e precisão. Eu enxergo até meio de lado.

O pessoal pede pra você na rua coisas do tipo: "narra um gol do curíntia, Silvério!"?
Ah, pede, pede... Mas isso não faço. É a única coisa que eu não faço. Atendo todos com a maior presteza, mas não dá. Um gol que não existe fica sem emoção, fica feio. Até comercial já deixei de fazer porque tinha que narrar assim. Se quiserem pegar um gol meu eu vendo, pode até pegar no Google de graça, não tem problema. O gol tem vida, tem alma...

E os jogadores, te conhecem?
Conhecem de nome. Eu sou meio escondido. Quando o cara fica sabendo ele chega e fala: "Ah, lembro daquele gol meu que você narrou". Tem coisas que são muito boas pro seu ego, que te deixam feliz. Realmente, se eu pudesse faria tudo de novo. A Rose, minha esposa, por exemplo, não conhece tanto a minha vida... Estou junto dela há quatro anos e ela vem nas entrevistas até pra saber dessas histórias. Eu fui casado por 45 anos, muito tempo. Minha mulher teve uma doença terrível e foi caindo, caindo... Uma coisa assustadora. Eu conheci a Rose logo depois que minha mulher morreu. Um dia depois do enterro... Ela veio me dar pêsames e não voltou mais pra casa dela (risos). Ela me deu um gás. Eu tava mortinho, bem ruim mesmo. E foi complicado, porque ela tava casada, né?



José Silvério - Entrevista - Revista SEXY - por_ Juliano Coelho - fotos_ Chico Max


Ah, então teve uma questão...
Uma, não (risos). Milhões de problemas... Mas faz parte da vida. E ela topou a briga e eu, do meu lado, achei ótimo!

Qual você prefere: a Arena Corinthians ou o Allianz Parque?
Ah, o Allianz! Itaquera não tem nem cabine ainda. Parece que agora vai mudar, não fui ainda. Mas se chovesse você tomava chuva. E o estádio é todo vazado e lá é frio, porque é alto. Se descuidar, você fica mal. Na do Palmeiras tem uma cabine sensacional. Tem ar-condicionado se estiver calor.

E a visão do campo?
Meio longe nos dois. Morumbi é moleza perto deles. Mas em termos de visão, nada se compara ao Pacaembu. Dá saudade do tempo em que todo torcedor levava radinho.

Mas o pessoal leva radinho até hoje, não?
Sim, mas tem dia que a polícia cisma com o radinho porque os negos jogam pilha no campo... Tem muita gente que sente falta do radinho de pilha. Até pra discutir com o locutor, né? Os caras xingam a gente mas é legal quando você é xingado, desde que seja xingamento normal, né? Um amigo meu queria me levar pra TV e disse: "Pô, você fica aí no rádio. Você é guia de cego!". Mas eu prefiro ficar no rádio, no meu mundinho, gosto de ser guia de cego (risos).



BEBIDA DA VEZ_
Durante o papo, José Silvério provou o vinho chileno Rucahue Carménere (R$ 87), da carta de vinhos do restaurante Cucina Piemontese, em Alphaville

LA CUCINA PIEMONTESE_ Avenida Valville, 550, Alphaville | Santana de Parnaíba, SP. | Tel 4154 4617




MAIS ENTREVISTAS

.