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Martinho da Vila

Martinho José Ferreira, popularmente conhecido como Martinho da Vila, começou a fazer sambas quando ainda era sargento do Exército, em plena ditadura. Foi censurado e chamado de comunista. Hoje, morando num condomínio na Barra da Tijuca, bairro nobre do Rio, diz que nada em excesso faz bem. Nem bebida, nem cigarro, nem sexo.

por_ Valdir Morel / fotos_ Marcos Dantas


Martinho da Vila

Dizem que não se faz mais samba como antigamente. Concorda?
Olha, os criadores estão aí. Pode não ter espaço nos programas musicais e na mídia de forma geral para eles como antes, mas há uma geração forte surgindo. O que vejo de diferente é uma nova forma de se fazer samba, com uma linguagem mais direta, que tem mais a ver com essa linguagem da internet, de jovens. Os compositores não estão se preocupando em burilar a letra. Daí a poesia, a palavra, a riqueza melódica estarem inferiores. Isso porque tudo é imediato demais. O samba tem perdido qualidade. Se você ligar o rádio, a maioria das estações populares procura exatamente esse tipo de música, que fale para esse tipo de público.

Dê um exemplo de música que ilustra esse momento atual.
Agora tem tocado muito "Sofrência", que está rolando por aí como nunca... Nós também tivemos, na minha época de garoto, músicas que tocavam nesse tipo de assunto, digamos de dor de cotovelo. Era a chamada música de fossa. Só que naquele tempo de fossa, a melodia era rica, a poesia era fundamental. Nessa "Sofrência" a poesia é ausente e a melodia é pobre, de comunicação mais direta... Infelizmente não dá para comparar as músicas de Dolores Duran (1930-1959), um grande nome da chamada música de fossa, com essa geração que acha que está fazendo a mesma coisa.

A forma de fazer música mudou, mas o público também mudou, não?
Estamos passando por um momento, eu diria, engraçado na música brasileira. Até as músicas ditas românticas estão animadas demais, feitas para serem coreografadas, sabe? Tipo, refrão com mãos para o alto, essas coisas (risos). O compositor já não pensa na beleza da construção de suas estrofes. Isso vem explicar, talvez, o sucesso desse ritmo acelerado do sertanejo atual, o que chamam de sertanejo universitário. Aliás, a música sertaneja, por princípio, se caracteriza por temas de gado, fazenda, cultura interiorana... Essas atuais falam mais de sexo, mulheres, bebida, corpo, do que de qualquer outra coisa.

Isso também se reflete no Carnaval, que você acompanha de perto?
Sim! Os dirigentes já pedem para que os seus compositores façam letras empolgantes, para cima, bem animadas, que façam a Avenida sacudir, vire tudo uma festa só. Lá no começo, os sambas-enredos não tinham esse propósito. O samba-enredo tinha como função primordial contar uma história daquilo que seria mostrado em fantasias e alegorias. Tanto que os bons sambas-enredos eram dramáticos. Os grandes sambas da história são emocionantes! Não se busca mais pegar o público pela emoção, mas pela coreografia.

Como fica sua cabeça ao se sentar para compor? Isso tudo não desestimula, não causa um bloqueio criativo?
Ah, eu não penso nisso. Não penso no que está rolando lá fora, penso no que quero fazer. Não pode ser um bloqueio para mim. O criador precisa fazer o que ele acha que tem que ser feito. Não tem que fazer o que acha que está na moda e que vai ser legal para os outros. Senão não vai ser verdadeiro, vai ser mais um, vai ser comum demais.

Você foi o primeiro sambista a atingir a marca de 1 milhão de cópias vendidas. Algum dia será possível voltar a chegar a essa marca, em tempos de pirataria e crise na indústria fonográfica?
Essa marca veio com o disco de Tá Delícia, Tá Gostoso (1995), por ter passado a barreira de 1 milhão de cópias. Hoje, se um disco passar de 20 mil cópias, está maravilhoso. Sertanejo e padre é que ainda vendem bem. O resto não mais. A venda estrondosa daquele período casava com a mudança de vinil para CD, os aparelhos estavam chegando na casa das pessoas. Havia muita curiosidade de compra. E só mais tarde conheceríamos a pirataria...

O historiador e produtor musical Sergio Cabral já declarou que: "Se tivesse que reduzir o Brasil que dá certo a um único brasileiro, este seria Martinho da Vila". É muita responsabilidade um título como esse, não?
Cabral é um grande amigo. Ele ainda complementou dizendo que, se tivesse que escolher alguém para representar o bom caráter do brasileiro, esse alguém seria eu. Acho que foi de uma responsabilidade muito grande ele ter falado isso. Se arriscou demais (risos). É ou não é? As pessoas mudam! Vai que eu cometo um deslize. Se por ventura eu fizer alguma coisa que os outros não achem legal, isso vai atingir o Cabral, coitado, que não tem nada a ver com isso (risos). Quando você defende uma pessoa, se torna responsável por ela. "Ih, olha lá o Martinho, seu exemplo de bom caráter..."

Vamos falar de política. Como você tem visto a crise econômica que atinge o país?
As conquistas sociais que tivemos precisam ser duradouras. Hoje nas universidades você vê gente de todas as classes, o que era impensável décadas atrás. Isso não existia, porque foram criadas nos últimos governos formas de inserção dessas pessoas. Seja por cotas, seja por financiamento. Aliás, financiamento que está em suspenso, em crise no momento. Mas isso tem uma explicação. A procura pelo acesso ao ensino superior foi muito maior do que o governo esperava. Não houve planejamento para tanto financiamento educacional. Não calcularam essa corrida de gente desesperada por estudos. Agora o jeito é tentar ajustar de outras formas.

Mas a crise não é só no repasse de verbas ao sistema educacional. Estamos falando de uma crise ética que assola o governo nos últimos tempos.
O governo Lula foi o melhor que esse país já teve desde Getúlio Vargas. Só que tudo que fica muito tempo se deteriora. Todo governante que fica muito tempo no poder, pode ver ao longo da história, fica mal na foto. O propósito da ditadura, por exemplo, era só chegar ao poder, dar uma sacudida no Brasil, ajustar o crescimento e bola pra frente com as eleições. Mas aí ficaram toda a vida. A corrupção é inerente aos negócios. Você precisa lutar contra ela, mas ela existe no mundo (fala com ênfase). Estamos vivendo no Brasil algo muito especial. Veja só, não lembro de casos corriqueiros na história de gente com poder indo presa. Juiz só vai preso no Brasil hoje em dia! Até recentemente isso não existia. Estava falando com um taxista dia desses esse assunto. Os noticiários mudaram a forma de contar o Brasil. Antes só falavam dos pobres que iam presos. Agora todo dia tem um poderosoendinheirado sendo preso pela Polícia Federal. Isso é um fato positivo. Pessoas que antes se achavam acima da lei agora têm seus papéis reescritos. E, se as prisões continuarem, acho que vai faltar cadeia para tanta gente (risos). Aí o Brasil para.


"SEXO É UM VÍCIO QUE É PRECISO CONTROLAR"


Fale um pouco mais sobre isso. Em um certo ponto a corrupção então é necessária?
Não, mas veja. Essas obras das Olimpíadas do Rio, é só olhar aqui para as obras da Barra da Tijuca, onde moro. Se você for ver as empreiteiras responsáveis pelos últimos escândalos nacionais, se for pegar lá as empresas metidas em falcatruas da Copa, são as mesmas que tocam as obras para os Jogos de 2016. Aí todos os caras dessas empreiteiras vão presos, não tem mais quem queira colocar dinheiro para fazer a máquina continuar girando... E como ficamos? Ferrou! Quebra tudo! Ação na corrupção tem que ser igual a essas ações da polícia em favelas do Rio, as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora). Primeiro vai numa favela, pacifica, pensa, depois vai em outra, tudo com muita calma...

Martinho da Vila

Martinho, como era sua vida na favela, antes de começar a ganhar dinheiro?
Fui criado na Serra dos Pretos Forros, na favela Boca do Mato (na zona Norte do Rio). Favela tinha suas normas, seus respeitos, suas leis próprias. Sou de um tempo em que as pessoas que moravam na favela não se consideravam parte da cidade. Quando iam descer para o asfalto, diziam: "Vou lá na cidade". Olha que mudança de ótica. Tem vários sambas antigos que trazem essa percepção. Antigamente o malandro do morro não descia, mas a polícia também não subia (risos).

E como é viver hoje em um condomínio de luxo?
Tudo é adaptação. Aqui tenho margem de segurança maior, é tudo monitorado com câmeras. Assim como Zeca Pagodinho, também preciso ter meu cantinho em outro lugar. O meu é lá em Vila Isabel (bairro da zona Norte do Rio), gosto muito mais de lá do que daqui. Não consigo me afastar totalmente de Vila Isabel. Não saí de lá.

Como é sua relação com o Zeca Pagodinho, seu vizinho?
Zeca é o artista que menos mudou com a fama. Até eu mudei (risos). Não vou mais a botequins, por exemplo. Zeca para no quiosque da praia para beber com o pessoal. Quando começa a encher muito, ele troca e vai para o do lado... Eu passo caminhando e ele está lá com o pessoal... Me chama para um chope. É um dos artistas mais bem-sucedidos do Brasil, não muda, é o jeito dele.

Você esteve por treze anos no Exército, incluindo o período da ditadura militar. Como foi isso?
Em 1964 eu era sargento. Existem militares e militares. Eu fui da área dos gabinetes, cuidava de burocracia. Servi só uns meses no quartel. Depois fiquei em laboratório químico-farmacêutico, fazendo essas coisas internas. No auge da ditadura, trabalhei na Diretoria Geral de Engenharia e Comunicações, no centro do Rio.

Como lidava, enquanto cantor, com a perseguição a artistas e intelectuais do país?
Todo mundo sabia que existia repressão no país. Eu vivia numa situação confusa na cabeça das pessoas, porque já fazia shows. Uns admiravam os militares, outros os odiavam. Havia quem me achasse comunista ferrenho, e quem achasse que eu era informante do Exército infiltrado na música. Fui levando a vida sem estresse, na minha. Isso me ajudou a não arrumar briga com nenhum dos lados. Em 1967, quando a repressão já estava mais forte, os militares precisavam fazer ações para ganhar apoio da população. Qualquer militar que se destacasse na vida civil era visto com bons olhos lá dentro, isso não me foi um complicador, pelo contrário. Eu era insultado num show com palavras do tipo: "Sargento!". E na música seguinte outro me chamava: "Comunista!".

Teve letras censuradas?
A música é, das artes, a que talvez tenha mais força. Num país em repressão, a música é a primeira a ser vigiada. Ainda mais quando falamos no período dos anos 60, quando as rádios dominavam o país. Quando uma música minha era censurada, ué, eu usava o quê? Minha simpatia, meu sorriso, minha capacidade de convencimento... "Disritmia", das minhas letras mais conhecidas, foi censurada porque acharam que falava de bebida. E havia uma campanha nacional contra bebida. Geralmente compositor comprava briga, ficava puto, queria xingar o regime. Eu não! Entrava lá e queria falar com o censor.

Você peitou um censor? Como foi isso?
Não peitei. Pedi para ver a censura à música. Por que "Disritmia" não podia passar? O censor disse que não podia validar música com uísque, porre, bêbado... E não havia nenhuma dessas palavras na letra! Mostrei a ele que havia um engano. Pronto, meses depois liberaram a letra. Descobri outra tática boa, também usada por João Bosco e Aldir Blanc. Se censurassem uma letra, era só reapresentar a mesma música com outro nome. Quase sempre dava certo (risos). Não havia muita regra, mas não podia era bater de frente. O que me ajudava, claro, nisso tudo também é que meu nome nunca simbolizou uma bandeira contra a censura. Tinha compositores e cantores que, tipo música do Gonzaguinha, música do Chico Buarque, ih, ferrou.


"SE AS PRISÕES CONTINUAREM, VAI FALTAR CADEIA PARA TANTA GENTE. O BRASIL PARA."


Por que, ao contrário dos seus amigos à época, você nunca quis ir para as ruas protestar contra o regime?
Porque não sou aquele cara que vai a passeatas, sou aquele que pode levar os outros a ela. Modéstia à parte, tem os que são conduzidos e os que são condutores. Eu preciso estar à frente de um movimento, não sou um homem-massa. Minha área é mais a da negritude, do samba. Não estava preocupado com política. Minha atuação sempre foi outra área.

Era medo de ser expulso do Exército?
Não tenho medo de nada. Não tenho medo nem de morrer. Morreu? Acaba dívida, acaba até a ressaca (risos).

Você já teve aquela fase boêmia, comum a qualquer sambista?
Sempre tive direção, foco. Diretor de escola de samba, compositor... Nunca fui o boêmio que bebe, fica no balcão até fechar, que anda trôpego para lá e para cá. Jamais fui assim. De verdade. Tudo o que se faz em excesso enjoa. Está vendo aquela piscina ali (ele aponta para a janela, de onde se avista uma piscina)? Se vier uma família morar aqui, todo domingo vai cair na água. Um mês depois, não aguenta mais olhar a piscina. Eu sou assim.

Martinho da Vila

Mas ainda bebe e fuma, certo?
Eu bebo, fumo... Faço tudo. Não cheiro, não fumo maconha. Nunca fumei maconha, porque não gosto do cheiro. E sempre tive na minha cabeça que isso não ia ser legal. Houve um período em que eu exagerava mais um pouco na bebida. Mas é como te falei: tudo o que se faz em excesso enjoa.

Qual é sua receita para curar a ressaca?
Eu não fico de ressaca. Meu fígado sempre foi legal. Adoro beber vinho, mas é a pior bebida que existe. Depois que você pega hábito, precisa elevar o tipo de vinho, vai melhorando seu paladar... Até que o vinho fica mais caro do que a comida que te levou àquele restaurante. Com R$ 160 você compra uma boa garrafa de vinho. Imagina quantas latinhas de cerveja daria para comprar? Mas também bebo cerveja, cachaça, uísque, qualquer coisa... Gosto de Campari, que quase ninguém gosta. Mas sem excessos.

E excessos de mulher? Teve essa fase?
Sexo é um vício que é preciso controlar. Só que a gente ganha essas capacidades de controle ao longo da vida (risos). Hoje estou quieto, rapaz. Vinte e dois anos de casamento.

Você é o cantor de versos como "Já tive mulheres de todas as cores/ De várias idades/ De muitos amores..."
Essa música não é minha, é do Toninho Geraes. Eu só dei um trato nela. Meu lema é: "Ama muito quem ama somente um grande amor".

O que você percebe que o tempo te trouxe de bom?
Antigamente eu era mais impaciente. Vou te dar um exemplo. Odeio ir a lugares que sei que vou encontrar muita gente. Simples. Porque odeio ficar tirando muita foto (risos). Então, prefiro ficar mais em casa. Mas, se encontro e me pedem para tirar foto, vou atender, abro um sorriso e vamos embora. Antes eu não sabia dosar isso. Virava as costas e tchau. Isso é chato, acabava magoando até pessoas que tinham grande apreço por mim, pelas minhas músicas. É a vida que te dá essa capacidade maior de aturar os chatos (risos). Nós, os artistas, temos uma força sobre o público. Não se pode ignorar isso.

No início do ano você perdeu a eleição que disputou para uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL). E depois declarou que isso o magoou. Voltaria a tentar se eleger?
Não sei. Amigos lá de dentro me incentivaram a entrar na ABL. Só tem um negro atualmente na ABL, o (poeta) Domício Proença. Minha candidatura foi mais de atitude do que outra coisa. Aquilo lá tem muita vaidade. Fiquei um pouquinho chateado com alguns acadêmicos que não votaram em mim, estavam já compromissados com outro candidato. Eu só vou aonde acho que serei útil, e lá eu acho que seria bastante útil. Ao mesmo tempo é um ambiente muito bom para trocar experiências. Mas é aquilo, é um poço de vaidade. Os músicos, nós somos também vaidosos. Os artistas vivem de aparência. Há até uma lógica no fim das contas.

Quando está diante de si, no espelho, quem você vê? Que Martinho é esse?
Eu ajo em múltiplas tarefas, você não vai conseguir me definir em poucas palavras (risos). Minha música não tem faixa etária, não tem classe social e atinge todos os gêneros. Tem homem que, quando me vê, treme de emoção ao vir me dar um abraço. É muito bonito. O que mais gosto nessa vida é passar emoção para a pessoa. Adoro cantar uma música num show e ver, lá na plateia, que teve alguém que chorou. Isso tocou nele. Outra coisa que adoro fazer é perceber que vem alguém na calçada, toda séria, emburrada para a vida, e eu lhe abro um sorriso. Ela se encanta também! É uma dádiva. Pronto, deu um sorriso naquele dia difícil.



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