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Zé Roberto

Com 40 anos e jogando com pique de menino, Zé Roberto contaque a preparação da seleção em 2006 parecia uma feira, diz que abdicou de muita coisa para ser atleta e que, se não fosse a insistência da mãe, continuaria como office boy

por_ Fel Mendes e Juliano Coelho / fotos_ Daniel Spalato


Zé Roberto - Entrevista - Revista SEXY - por_ Juliano Coelho - fotos_ Daniel Spalato

Você é notório por ser aplicado. Já participou de algum time e, por não acreditar muito na ideia do treinador, deixou ele em segundo plano?
Nunca participei de time assim, não. As equipes em que eu joguei sempre seguiram as orientações do treinador. E é claro que, em algumas circunstâncias do jogo, quem está dentro do campo pode ter uma leitura diferente. Às vezes você consegue passar alguma coisa que ajuda a equipe numa situação no decorrer do jogo. Mas nunca participei de time que faz o contrário do que o treinador passa.

O jogador que tem essa função tática dentro do jogo acaba sendo o capitão?
Acredito que não. O capitão acaba exercendo aquela função de liderança, de representar o time dentro de campo, em situações em que o árbitro, muitas vezes, está equivocado em alguma falta ou alguma decisão. Um exemplo claro que a gente pôde ter foi num jogo no qual, no fim do primeiro tempo, eu, Dudu e o Fernando Prass fomos falar para o árbitro que a equipe adversária estava fazendo cera... Ele não quis nem conversa, deu logo amarelo para os dois e eu acabei não recebendo, porque a autoridade do capitão acaba impondo mais respeito.

Como você vê a tecnologia ajudando nas decisões do jogo?
Acho que a tecnologia pode ajudar, como tem ajudado em outros esportes. Não vejo nada que possa atrapalhar. A maioria dos estádios hoje no Brasil é moderno e tem telão. Ajudaria muito. Muitas vezes o árbitro erra, e muito, com jogadas difíceis de interpretar.

Quem é contra tecnologia fala que o futebol perderia a malandragem...
Não vejo assim. O lance da malandragem sempre vai acontecer, isso já faz parte da história do futebol. Mas o que a gente pode colocar pra agregar e melhorar é sempre muito positivo.

Você fez 40 anos e continua com a parte física muito boa. Como sente a idade?
Vejo a minha parte física de uma forma muito clara e objetiva: estou colhendo os frutos que plantei há muitos anos, quando me considerei um atleta profissional e entendi que meu corpo é meu instrumento de trabalho. Quando entendi isso, passei a cuidar dele, no sentido de me alimentar bem, de não ter nenhum vício, denunca ter tomado bebida alcoólica. Nunca tive também vício do tipo do cigarro ou o que seja. Casei muito novo e isso pra mim foi importante. Posso dizer que minha família foi a base pra agregar todos esses fatores. Sou abençoado por ter a genética que me favorece, sou muito profissional e tenho minha família. Com todos esses fatores a seu favor, é você quem decide quando vai parar. Vou decidir, então. Não sei se vai ser no ano que vem.

Mas você se sente no seu auge?
Eu me sinto no auge. Costumo dizer que passei a viver meu auge após os 30 anos. Ao contrário de muitos, que começam a atingir a decadência a partir dessa idade ou até param com 34, 35, 36 anos. No meu caso foi o contrário. Os números provam que eu melhorei depois dos 30. Quando disputei a Copa do Mundo de 2006 tinha 32 pra 33 anos e entrei na pré-lista da Fifa como um dos 23 melhores jogadores daquele mundial. Depois fui jogar no Santos, no Bayern de Munique, no Hamburgo, no Catar, no Grêmio e agora no Palmeiras, todos eles com muitos bons resultados, ocupando lugar de destaque em cada uma das equipes.

Tá indo bem, né? Houve algum episódio específico que tenha sido um marco pra você saber que estava no auge?
Acho que em 2006, na Copa, que foi uma fase importante, quando eu percebi que a idade, pra mim, era somente um número. Porque, com 32 pra 33 anos, você receber uma proposta pra jogar por dois anos no Bayern de Munique, ser considerado o melhor jogador da atualidade no Brasil... Acabei recusando uma convocação depois, do Dunga, pra Copa América. Fiz isso porque estava retornando pra Europa, e a minha prioridade era ter mais tempo pra ficar com minha família. Porque o ano de 2006, jogando pelo Santos, foi muito desgastante e, aqui no Brasil, o calendário meio que acaba com a sua vida social. Foi quando olhei pra mim e falei: "Pô, acho que não tenho limite, não". Vou jogar até quando eu quiser, porque tenho bastante lenha pra queimar. Tive que renunciar a muitas coisas lá atrás pra que hoje eu pudesse estar colhendo os frutos.

Quando a aposentadoria chegar o que você pretende fazer?
A gente vai ficando mais velho e, por já viver no meio do futebol há muitos anos, cria outras prioridades. Então, eu quero, no momento, fazer um grande ano aqui no Palmeiras. O meu maior objetivo aqui é conquistar títulos. Até pelo carinho com que a torcida me recebeu, desde o primeiro dia em que estive aqui. No ano que vem, vejo o que vou fazer, se continuo a jogar mais um ano ou se parto pra fazer alguma outra coisa. O que eu sinto muito agora é não ter mais tempo pra minha família. Queria buscar meus filhos na escola, ter mais tempo pra eles... Durante esse período de seis meses ou um ano que eu ficar com minha família, aí eu decido.



Zé Roberto - Entrevista - Revista SEXY - por_ Juliano Coelho - fotos_ Daniel Spalato


Você, que estava no grupo da seleção em 2006, sentiu o clima de oba-oba?
O grupo era muito bom. Nosso time tinha a metade dos jogadores titulares de férias, quando, em 2005, ganhamos a Copa das Confederações por 4 a 1, na final, com a Argentina. Era um time que entrou pra Copa como favoritaço. O que prejudicou foi essa questão de organização. Foi algo muito visível e que serve de exemplo pra nós o que a Alemanha fez aqui no Brasil, em 2014. Ficou faltando organização daqueles que estavam envolvidos, como a CBF, a comissão técnica, nós, jogadores... E alguns dos jogadores que se apresentaram um pouco acima do peso. O foco não foi total. Quando você chegava para o treinamento em Weggis, o corredor parecia uma feira. Tinha batucada, venda de produtos do Brasil... No campo de treinamento fizeram até arquibancada. A gente não tinha privacidade. Isso prejudicou muito.

Você conheceu bem o jeito alemão de trabalhar. O que fizeram na Copa do Mundo reflete essa organização?
Claro. Eu já via isso, por ter jogado 12 anos lá. A mentalidade deles é totalmente diferente. A Alemanha é um país que tem organização em tudo. Antes de 2006, eles já tinham um planejamento de reformulação da seleção alemã, agregando tudo: o governo junto com as escolas, as federações, os clubes... Todos montaram uma estrutura pra captar talentos. Foram implantando a mentalidade e ganharam em 2014. E muitos dos jogadores jogaram juntos desde a base.

Dá pra explicar o 7 a 1?
É simples de explicar. Faltou um pouco de humildade da nossa parte. A gente sabia que o Brasil não estava fazendo uma grande Copa do Mundo. Já tinha quase perdido para o Chile, com aquele chute na trave... Faltou saber que tinha que marcar a equipe deles, que estava crescendo na competição. O Brasil foi pra cima, deixou a parte defensiva muito exposta e acabou levando os gols. E quando você toma um, dois, três, quatro gols, acaba batendo um desespero, que você não sabe se só se defende ou se larga lá atrás e tenta igualar o número no placar. Faltou saber que ia jogar contra uma grande equipe e fazer, de repente, uma formação mais cautelosa e tentar sair para o contra-ataque. Quando foi ver, já era tarde.

Dá tempo de torcer pra algum time?
Quando eu era pequeno, por morar perto da Portuguesa e ter iniciado lá, sempre tive um carinho por ela. Hoje, o clube que eu tenho no coração é a Portuguesa.

É chato ser reserva?
É difícil de lidar. Ninguém quer ser reserva. Mas é preciso respeitar a decisão do treinador e o seu companheiro, com o qual você convive mais do que com os familiares. A oportunidade está sendo dele, mas não quer dizer que ele vai ser titular pra sempre. Você tem que estar preparado pra, quando tiver a chance, mostrar que pode ser titular. É uma questão de perfil. Tem atleta que, quando perde o espaço que tinha no time, já desiste, já larga e desanima. Tem aquele que não, que continua se dedicando...

Você casou com 22 anos. Como conseguiu driblar o assédio das mulheres?
Por eu ter casado novo - e sempre foi um desejo meu, de ter esposa e filhos - isso me ajudou muito no meu processo de crescimento como atleta profissional focado no trabalho. Porque, infelizmente, tem muito jogador jovem solteiro que quer curtir a vida adoidado. Não passei por isso, porque já casei muito cedo e minha família é minha prioridade. Então nunca me deslumbrei com noite, com mulher, com festa. Não consigo te responder como é lidar com o assédio porque nunca passei por isso.


"Faltou um pouco de humildade da nossa parte no 7 a 1"


Você é um exemplo pra molecada, né?
Acho que sim, até porque hoje em dia a gente tá carente de exemplo. Mas acho que vai muito da cabeça também. Tem os que querem uma família e tem outros que não. E fica muito fácil você ver a direção daquele que foca e daquele que quer viver a vida. O que foca quer a longevidade, e aquele que quer viver a vida adoidado acaba parando no meio do caminho. E é um exemplo de milhares e milhares de jogadores. Eu decidi seguir o caminho certo e hoje estou aqui e não é por acaso.

Você chegou a ter um plano B se não desse certo a vida de jogador?
Eu cheguei a trabalhar. Antes eu treinava no Pequeninos do Jockey, mas não tinha dinheiro pra condução, pra ir treinar todo dia. Com 15 pra 16 anos, perdi minha irmã, que era o braço direito da minha mãe, meu pai tinha saído de casa e eu decidi trabalhar como office boy. Depois de seis meses de carteira assinada, eu já tinha esse caminho direcionado. Mas minha mãe, saindo do trabalho, passou na Portuguesa, perguntou lá quando seria a peneira e me inscreveu. Eu falei: "Não, mãe, tô feliz com meu trabalho. Tenho tíquete-refeição, passe escolar, carteira assinada, tô felizão". E ela: "Não, já coloquei seu nome lá e você vai ter que ir. Eu falo com seu patrão pra te liberar".

Ainda bem. Tem mãe que não apoia...
Ainda bem. Meu pai, por exemplo, não me apoiava. Eles discutiam muito por isso. Meu pai falava pra eu trabalhar e ela me incentivava e chegava a tirar mistura de casa pra me dar dinheiro da condução. Ela pedia dinheiro emprestado para os vizinhos, também. Ela foi fundamental pra eu me tornar atleta.

Quando você percebeu que tinha um futebol acima da média?
Isso veio da minha mãe também. Um dia perguntei pra ela o motivo de ter insistido tanto em mim, e ela falou: "Quando eu te levava pra treinar no Pequeninos do Jockey, eu ficava num cantinho, porque não podia ficar junto dos outros pais, que eram homens. E ali, quando você jogava, eu ouvia os comentários deles e eles falavam: "Tá vendo aquele camisa 11 ali? Aquele neguinho vai dar trabalho". Ela era mulher e não entendia muito de futebol, mas acreditava naquilo que os outros pais falavam.



Zé Roberto - Entrevista - Revista SEXY - por_ Juliano Coelho - fotos_ Daniel Spalato


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