Primeira Conferência Nacional sobre Conformidade e Responsabilidade Digital reúne profissionais, empresas e autoridades em São Paulo
fotos_ Nelson Miranda
reportagem_ Antônio Abrão
O evento que revoluciona a indústria do conteúdo adulto brasileira: ABIPEA Connect 2025 – Na última sexta-feira (05/12) aconteceu a 1ª Conferência Nacional sobre Conformidade e Responsabilidade Digital do Mercado Adulto Brasileiro em São Paulo.
A ABIPEA – Associação Brasileira da Indústria e Profissionais do Entretenimento Adulto é uma nova entidade que tem por objetivo representar, apoiar e fortalecer os diversos profissionais e empresas que atuam no setor de entretenimento adulto no Brasil. É uma presença importante em um mercado digno que emprega e produz, mas que muitas vezes seus profissionais se viam desamparados diante das dificuldades e da estigmatização com relação ao setor.
A conferência, realizada no Hotel Mercure Ibirapuera, reuniu donos de empresas, criadores, advogados, delegados, psicólogos, sexólogos, especialistas em tecnologia e autoridades do governo federal, configurando um debate transversal sobre os impactos das novas legislações – especialmente o ECA Digital e a Lei Felca – e sobre o papel do setor na construção de uma cultura de responsabilidade digital.

A presidente da ABIPEA, Paula Aguiar, abriu oficialmente o evento apresentando a associação, seu manifesto e sua agenda institucional. Reconhecida há mais de duas décadas no mercado adulto, Paula defendeu que o setor está pronto para operar de forma limpa, regulamentada e colaborativa, assumindo publicamente o interesse em cumprir normas e atuar com transparência. Ela reforçou que a indústria sempre quis jogar dentro das conformidades, e que sempre foi necessário uma entidade que desse respaldo, articulasse diálogos e organizasse demandas reais do mercado adulto.

A conferência dedicou seus primeiros blocos a uma imersão nos aspectos jurídicos e tecnológicos das novas exigências legais. A Secretária Nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça, Dra. Lílian Cintra de Melo, apresentou os fundamentos da ECA Digital, contextualizando as mudanças regulatórias que impactam diretamente plataformas e criadores. Sua participação sinalizou o reconhecimento institucional do tema por parte do governo federal.

Na sequência, os advogados Dr. Fernando Bousso e Dra. Beatriz Vicente, especialistas em tecnologia, privacidade e proteção de dados, destrincharam os requerimentos e implicações do ECA Digital para o setor adulto. Falaram sobre riscos jurídicos, obrigações operacionais, governança e responsabilidade compartilhada.

O evento apresentou ainda o Painel Técnico ABIPEA Metatag RTA, iniciativa inédita da associação que busca padronizar mecanismos de identificação e responsabilidade digital no mercado adulto brasileiro. Complementando a pauta tecnológica, Debora Sena (Incode) e Renato Piparo (Camara Soft) trouxeram a perspectiva de soluções de verificação de idade, discutindo a aplicação prática dessas tecnologias sem comprometer a experiência do usuário e respeitando, ao mesmo tempo, requisitos legais.

O Painel 1, mediado por Nizzo Neto, abordou as conformidades da ECA Digital e reuniu nomes essenciais para o debate:
André Lopes, perito cibernético;
Dra. Fabyola Rodrigues, advogada penal empresarial;
Luciane Cabral, especialista em sexualidade e proteção infantojuvenil;
Dr. Paulo Tessarioli, presidente da ABRASEX.
O perito André Lopes, responsável pelo portal “A Tal da Segurança”, destacou a gravidade das denúncias de abuso envolvendo menores e a dificuldade em enfrentar o problema sem diretrizes claras e sem o respaldo de uma entidade representativa. Com a ABIPEA e a regulamentação mais definida, argumentou ele, o setor finalmente começa a construir um ambiente mais seguro.
A sexóloga Luciane Cabral reforçou a importância da educação sexual de qualidade, sobretudo para crianças e adolescentes, como política de prevenção e ferramenta de proteção.

Na parte da tarde, o evento abriu o eixo social. Silvana Zigoski, do Skokka, trouxe a perspectiva de uma plataforma global sobre ética, responsabilidade corporativa e inclusão no mercado adulto internacional. Em seguida, o discurso foi endossado por Samuel Ongaratto, diretor de negócios da Fatal Model, que reforçou os desafios de um setor que cresceu sem representatividade e sem estrutura formal para defender suas pautas. Ele esclareceu como trabalhar em um mercado estigmatizado significa, muitas vezes, não ser ouvido. E como a criação da ABIPEA muda esse cenário. A entidade insere essa indústria no debate regulatório com responsabilidade e disposição para cumprir as novas regras. Samuel continuou a apresentar o painel “Desafios e Soluções”, trazendo uma visão realista dos desafios operacionais de uma das maiores plataformas do país no processo de adequação à nova legislação. O tema segurança voltou com a participação de Dr. Flávio Rolim, Delegado da Polícia Federal e chefe da Unidade de Repressão a Crimes Cibernéticos de Ódio, que abordou a vulnerabilidade de jovens frente a crimes digitais, mecanismos de investigação e desafios do ambiente online. Fechando os debates temáticos, Camila Gentile, Prof. Graça Tessarioli, Ruth Gonçalves e mediação de Camila Voluptas discutiram os desafios reais do mercado adulto, abordando profissionalização, educação sexual, varejo, liberdade sexual, saúde e inclusão.


O evento foi conduzido ao longo de todo o dia por Nizo Neto, garantindo ritmo, transições claras e integração entre os temas, com uma dose de bom humor. Ao final, Paula Aguiar convidou autoridades e participantes para a assinatura oficial do Manifesto da ABIPEA, consolidando formalmente a agenda institucional da entidade. O encerramento foi seguido pelo Connect Networking Lounge, momento de entrevistas, trocas profissionais e articulação entre empresas, especialistas e lideranças.

Com a criação da ABIPEA e a realização da sua primeira conferência, o mercado adulto brasileiro dá um passo decisivo rumo à conformidade, transparência e profissionalização. Ao reunir indústria, governo e especialistas – algo até então inédito no país -, a associação inaugura uma fase em que o setor deixa de ser tratado apenas como tabu e passa a ocupar seu lugar legítimo nas discussões de responsabilidade digital, segurança, educação e proteção de menores. A ABIPEA surge, portanto, como porta-voz, articuladora e catalisadora de um novo ciclo de maturidade institucional do mercado adulto no Brasil.



